O agronegócio brasileiro está em crise?
O crescimento das recuperações judiciais no agronegócio em 2025 foi expressivo e revela um aumento real da pressão financeira sobre produtores rurais e empresas da cadeia agroindustrial. Segundo levantamento da Serasa Experian divulgado pela Exame, o setor registrou 1.990 pedidos de recuperação judicial no ano, entre produtores rurais pessoa física, produtores rurais pessoa jurídica e empresas ligadas ao agronegócio, o que representou alta de 56,4% em relação a 2024 e o maior número da série histórica iniciada em 2021. No acumulado do período de 2021 a 2025, o avanço foi de 931,6%, dado que demonstra expansão muito acentuada do uso do instituto recuperacional no setor.
Esse aumento, porém, não decorre de um único fator. Os dados apontam que o setor foi afetado por uma combinação de elementos que comprometeram o fluxo de caixa e a capacidade de pagamento dos agentes econômicos do agro. Entre eles estão o crédito mais restritivo, a manutenção de custos elevados de produção, o alto grau de alavancagem, a dolarização de insumos, a queda ou oscilação dos preços das commodities e os riscos climáticos, além do fato de que a atividade rural trabalha com um ciclo financeiro mais longo, o que aumenta a exposição entre o momento do investimento, a colheita e a efetiva geração de receita. A própria Serasa destacou que esse ambiente continuou pressionando a capacidade de pagamento de parte relevante dos produtores ao longo de 2025.
Também chama atenção a forma como esse crescimento se distribuiu dentro do próprio setor. Os produtores rurais pessoa física responderam por 853 pedidos em 2025, contra 566 no ano anterior, com alta de 50,7%. Já os produtores rurais pessoa jurídica passaram de 409 para 753 pedidos, com crescimento de 84,1%, o que indica forte aumento da procura pela recuperação judicial entre estruturas empresariais formalizadas. As empresas ligadas ao agronegócio, como companhias de insumos, logística, processamento e serviços, também apresentaram elevação, com 384 pedidos, alta de 29,3% em relação a 2024. Esses números mostram que a deterioração financeira não ficou restrita ao produtor em sentido estrito, mas atingiu diferentes elos da cadeia produtiva.
Sob o aspecto territorial, os pedidos se concentraram principalmente em estados com forte presença na produção de grãos. Mato Grosso liderou com 332 solicitações, seguido de Goiás (296) e Paraná (248). Na sequência aparecem Mato Grosso do Sul (216), Minas Gerais (196), São Paulo (189) e Rio Grande do Sul (159). Segundo a reportagem, isso evidencia a concentração das recuperações judiciais nas regiões Centro-Oeste e Sul, justamente onde se encontram importantes polos de produção de soja, milho, carnes e cadeias integradas do agronegócio.
Ao mesmo tempo, é importante registrar que o aumento das recuperações judiciais não autoriza, por si só, a conclusão de que o agronegócio brasileiro esteja em colapso generalizado. A análise veiculada pela Gazeta do Povo sustenta que a leitura dos números deve ser feita com cautela, porque o universo de produtores e estabelecimentos rurais no Brasil é muito maior que o conjunto de casos levados ao Judiciário. O texto destaca ainda que a recuperação judicial passou a ser utilizada, em muitos casos, não apenas como resposta à insolvência extrema, mas também como instrumento jurídico de reorganização financeira, renegociação de dívidas e preservação da atividade econômica, dentro de um contexto de maior profissionalização da gestão rural. Esse ponto deve ser lido como interpretação especializada, e não como estatística oficial independente.
Em síntese, o salto das recuperações judiciais no agronegócio em 2025 parece resultar da soma entre pressão financeira objetiva e maior uso jurídico do mecanismo recuperacional. De um lado, houve efetiva piora das condições de liquidez, com aumento do endividamento e maior dificuldade de rolagem de passivos. De outro, produtores e empresas do setor passaram a recorrer com mais frequência à recuperação judicial como ferramenta legítima de reestruturação, o que também ajuda a explicar a forte expansão observada nos últimos anos.